terça-feira, 22 de setembro de 2009

TEXTO DE AUTORIA DA FORMADORA GISLENE/ PALMAS

Oi colegas, com a ajuda técnica do meu amigo Rodrigo (Gestar 2 de Matemática) consegui postar mais um artigo... bjs
Gislene Pires de Camargos Ferreira

Ensino de Língua Portuguesa: para quê?

Refletir sobre o ensino de Língua Portuguesa é percorrer um caminho marcadamente político e social rumo a uma educação inclusiva, libertadora e transformadora.
A autora Magda Becker Soares em seu livro Linguagem e escola - uma perspectiva social ressalta que a escola é um dos principais mecanismos para se conseguir a ascensão social. Entretanto, a escola, que deveria ser para o povo, é “antes contra o povo”, porque privilegia as classes dominantes, cuja linguagem sobressai em detrimento dos dialetos das classes populares. Assim sendo, a escola contribui para o freqüente fracasso escolar dos alunos oriundos das classes menos favorecidas. Nessa obra são apresentados alguns estudos desenvolvidos desde a metade do século XIX com o objetivo de explicar o fracasso escolar. Segundo o primeiro deles – a ideologia do dom – o baixo rendimento do aluno devia-se à sua incapacidade de se adequar ao que a escola oferecia.
A segunda explicação – a ideologia da deficiência cultural, atribuía o fracasso ao “déficit cultural” dos alunos. Enquanto a ideologia das diferenças culturais explica o fracasso escolar como conseqüência da discriminação que os alunos das classes desprivilegiadas sofrem por parte da escola, uma vez que a mesma não reconhece as variações lingüísticas que os educandos pertencentes às camadas populares apresentam.
Soares ressalta que a escola impõe a norma culta a indivíduos que não a dominam resultando o fracasso escolar. Sabe-se da importância do domínio da normal culta ou padrão para promover a ascensão social dos alunos, porém não se pode desprezar sua própria linguagem e cultura.
Assim sendo, é necessário que se adote o bidialetismo, não para abandonar e negar a bagagem lingüística e cultural do educando, mas para torná-lo apto a participar da transformação de sua condição social.
Sabe-se que os valores, os costumes, as crenças e os comportamentos partilhados por determinados grupos constituem a sua cultura. Por isso, não existem culturas deficientes, existem, sim, culturas diferentes. Porém, a maioria das escolas privilegia o padrão cultural das classes dominantes em detrimento do padrão das classes dominadas. Nas palavras da autora “o aluno sofre, dessa forma, um processo de marginalização e fracassa”. Tal fato não ocorre por deficiências intelectuais ou culturais do aluno, como defendiam a ideologia do dom e a ideologia das deficiências culturais.
O fracasso ocorre porque os valores da escola atuam em sentido contrário ao dos interesses dos alunos e tendem a precipitar sua expulsão da escola. É como se o sistema fosse instalado para garantir que eles passem pela escola e a abandonem como analfabetos.
Para elucidar os caminhos possíveis para que a escola comprometida com a luta contra as desigualdades cumpra seu papel social, a autora sugere que as forças progressistas nela presentes sejam vitalizadas e direcionadas adequadamente garantindo, assim, às classes populares a aquisição dos conhecimentos e habilidades que as instrumentalizem para a participação no processo de transformação social.
Ao delinear esses caminhos, Soares salienta que é imprescindível a todos os atores envolvidos no processo educacional que atuam na instituição (professores, diretores, supervisores e orientadores) a compreensão das relações entre linguagem e classe social, pois estas não se restringem à área do ensino de língua materna. Sendo a língua o principal instrumento de ensino e aprendizagem, sua importância envolve todas as matérias e todas as atividades. Afinal se a escola pretende cumprir seu papel de transformação não se pode negar o papel fundamental da linguagem.
Soares propõe o bidialetanismo para que o aluno possa adquirir o variante padrão sem esquecer seu dialeto para que consiga transformar sua condição de marginalidade. Assim, o currículo dominante deve, gradativamente, vir a ser dominado pelos alunos “dependentes” de modo a ajudá-los em sua luta pela eqüidade social e pela justiça social.
Espera-se que essas ponderações possam representar um convite à reflexão sobre o ensino de língua portuguesa junto às camadas desfavorecidas, reforçando a visão de uma educação transformadora e emancipatória rumo à autonomia e ascensão social do educando das camadas populares.
Recomenda-se que os atores envolvidos no processo educacional, principalmente aqueles que atuam em escolas públicas destinadas às camadas populares, possam utilizar metodologias que contemplem essa temática. E, consequentemente, contribuir para que não ocorra o fracasso escolar nas classes dominadas, construído sob interesses das classes dominantes. E ao mesmo tempo acenar caminhos para uma política educacional que promova a ascensão social de seus educandos. Nas palavras de Soares: “ensinar por meio da língua e, principalmente, ensinar a língua são tarefas não só técnicas, mas também políticas”.
Gislene Pires de Camargos Ferreira

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