Olá colegas, eis a resenha do livro "Linguagem e escola – uma perspectiva social" da Magda Soares, espero que possam utilizá-la em seus trabalhos.
Abraços,
Gislene
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Gislene Pires de Camargos Ferreira
Escrever sobre o livro Linguagem e escola – uma perspectiva social de Magda Soares é percorrer um caminho marcadamente político e social rumo a uma educação inclusiva, libertadora e transformadora.
Magda Soares é doutora e livre-docente em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora titular emérita da Faculdade de Educação dessa Universidade, é autora de diversos livros sobre o ensino de Português e de coleções didáticas para o nível fundamental.
A autora ressalta que a escola é um dos principais mecanismos para se conseguir a ascensão social. Entretanto, a escola, que deveria ser para o povo, e “antes contra o povo” (SOARES, p. ), porque privilegia as classes dominantes, cuja linguagem sobressai em detrimento dos dialetos das classes populares. Assim sendo, a escola contribui para o freqüente fracasso escolar dos alunos oriundos das classes menos favorecidas. Nessa obra são apresentados alguns estudos desenvolvidos desde a metade do século XIX com o objetivo de explicar o fracasso escolar. Segundo o primeiro deles – a ideologia do dom – o baixo rendimento do aluno devia-se à sua incapacidade de se adequar ao que a escola oferecia.
A segunda explicação – a ideologia da deficiência cultural, atribuía o fracasso ao “déficit cultural” dos alunos. Enquanto a ideologia das diferenças culturais explica o fracasso escolar como conseqüência da discriminação que os alunos das classes desprivilegiadas sofrem por parte da escola, uma vez que a mesma não reconhece as variações lingüísticas que os educandos pertencentes às camadas populares apresentam.
Soares ressalta que a escola impõe a norma culta a indivíduos que não a dominam resultando o fracasso escolar. Sabe-se da importância do domínio da normal culta ou padrão para promover a ascensão social dos alunos, porém não se pode desprezar sua própria linguagem e cultura.
Assim sendo, é necessário que se adote o bidialetismo, não para abandonar e negar sua bagagem lingüística e cultural, mas para tornar-se apto a participar da transformação de sua condição social.
Sabe-se que os valores, os costumes, as crenças e os comportamentos partilhados por determinados grupos constituem a sua cultura. Por isso, não existem culturas deficientes, existem, sim, culturas diferentes. Porém, a escola privilegia o padrão cultural das classes dominantes em detrimento do padrão das classes dominadas. Nas palavras da autora “o aluno sofre, dessa forma, um processo de marginalização e fracassa” (p. 15). Tal fato não ocorre por deficiências intelectuais ou culturais do aluno, como defendiam a ideologia do dom e a ideologia das deficiências culturais.
O fracasso ocorre porque “os valores da escola atuam em sentido contrário ao dos interesses dos alunos e tendem a precipitar sua expulsão da escola. É como se o sistema fosse instalado para garantir que eles passem pela escola e a abandonem como analfabetos” (FREIRE, p. 70).
Para elucidar os caminhos possíveis para que a escola comprometida com a luta contra as desigualdades cumpra seu papel social, a autora sugere que as forças progressistas nela presentes sejam vitalizadas e direcionadas adequadamente garantindo, assim, às classes populares a aquisição dos conhecimentos e habilidades que as instrumentalizem para a participação no processo de transformação social.
Ao delinear esses caminhos, Soares ressalta que é imprescindível a todos os atores envolvidos no processo educacional que atuam na instituição (professores, diretores, supervisores e orientadores) a compreensão das relações entre linguagem e classe social, pois estas não se restringem à área do ensino de língua materna. Sendo a língua o principal instrumento de ensino e aprendizagem, sua importância envolve todas as matérias e todas as atividades. Afinal se a escola pretende cumprir seu papel de transformação não se pode negar o papel fundamental da linguagem.
Soares propõe o bidialetanismo para que o aluno possa adquirir a variante padrão sem esquecer seu dialeto para que consiga transformar suas condições de marginalidade. Assim, o “currículo dominante deve, gradativamente, vir a ser dominado pelos alunos “dependentes” de modo a ajuda-los em sua luta pela eqüidade social e pela justiça social” (FREIRE, p. 77).
A livro Linguagem e escola – uma perspectiva social de Magda Soares é um convite à reflexão sobre o ensino de língua portuguesa juntos às camadas desfavorecidas, reforçando a visão de uma educação transformadora e emancipatória rumo à autonomia e ascensão social do educando das camadas populares.
A leitura da obra é recomendada a todos os atores envolvidos no processo educacional, principalmente aqueles que atuam em escolas públicas destinadas às camadas populares. O modo como a autora aborda a temática contribui para a compreensão do fracasso escolar nas classes dominadas, construído sob interesses das classes dominantes. Ao mesmo tempo acena caminhos para uma política educacional que promova a ascensão social de seus educandos. Nas palavras da autora: “ensinar por meio da língua e, principalmente, ensinar a língua são tarefas não só técnicas, mas também políticas”.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
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