quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Preconceito Lingüístico. O que é, como se faz.

Saudações colegas,

Esta resenha, acerca do Livro "Preconceito Lingüístico. O que é, como se faz." do Marcos Bagno, foi apresentada no meu trabalho de mestrado. Espero que sirva para ajudá-los.

Abraços,

Gislene

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Escrever sobre o livro Preconceito Lingüístico o que é, como se faz de Marcos Bagno é um convite instigante à reflexão do ensino de língua materna, especificamente, de Língua Portuguesa. Encarar o ensino de Português, principalmente nas escolas públicas onde o aluno, na sua grande maioria, é oriundo das camadas menos favorecidas, como uma ferramenta que possibilita percorrer um caminho político e social que leve a uma educação que promova a inclusão, a libertação, a transformação e a ascensão social.
Marcos Bagno é doutor em língua portuguesa pela Universidade de São Paulo, mestre em Lingüística, poeta, tradutor e contista premiado. Tem diversos livros dedicados ao público infantil e juvenil, alguns dos quais considerados "altamente recomendáveis" pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. É mineiro de Cataguases, escreveu o livro de contos A Invenção das Horas, ganhador do quarto Prêmio Bienal Nestlé de Literatura em 1988. Em o Preconceito Lingüístico - o que é, como se faz publicado em 1989 pela editora Loyola, Bagno faz uma discussão profunda sobre as implicações político-sociais da língua retomando o que já havia discutido em seu livro "A Língua de Eulália", novela sociolingüística que aborda a forma preconceituosa que a língua é tratada na escola e na sociedade.
O autor recusa, veementemente, a noção simplista da grande maioria dos gramáticos tradicionais que definem o uso da língua em "certo" e "errado", aprofunda e dedica-se a uma reflexão dos fenômenos do português falado e escrito no Brasil. Simultaneamente convida o leitor a fazer um passeio pela mitologia do preconceito lingüístico, com a finalidade de combater esse preconceito no nosso dia a dia, na atividade pedagógica de professores em geral, particularmente, dos professores de língua portuguesa.
Bagno parte do princípio de que a língua é um tema político, pois só existe língua se houver seres humanos que a falem. A partir disso, o autor constrói seu texto politizando a Lingüística que é a ciência que estuda a linguagem humana e suas implicações socioeconomicas. No primeiro capítulo descreve e (des)constrói oito mitos relacionados à língua portuguesa que são: mito 1 "A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente"; mito 2 "Brasileiro não sabe português/ só em Portugal se fala bem português"; mito 3 "Português é muito difícil"; mito 4 "As pessoas sem instrução falam tudo errado"; mito 5 "O lugar onde melhor se fala o português no Brasil é o Maranhão"; mito 6 "O certo é falar assim porque se escreve assim"; mito 7 "É preciso saber gramática para falar e escrever bem"; mito 8 "O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social".
No segundo capítulo "O círculo vicioso do preconceito lingüístico", o autor enfatiza que os oito mitos examinados são transmitidos e perpetuados em nossa sociedade. Esse círculo vicioso é formado pela junção de três elementos que Bagno denomina a "Santíssima Trindade" do preconceito lingüístico que são a gramática tradicional, os métodos tradicionais de ensino e os livros didáticos. Ressalta ainda os esforços do Ministério da Educação, através dos Parâmetros Currículares Nacionais - PCNs - para estimular uma postura menos dogmática e mais flexível no ensino de língua portuguesa.
No terceiro capítulo "A desconstrução do preconceito lingüístico" Bagno discute e propõe a ruptura do círculo vicioso, afirmando que a norma culta é reservada, por questões de ordem política, econômica, social e cultural a poucas pessoas no Brasil.
Sugere e incentiva a mudança de atitude do professor que deve refletir sobre a não aceitação de dogmas e adotar uma nova postura crítica em relação ao seu próprio objeto de trabalho: a norma culta. Essa mudança, do ponto de vista teórico, poderia ser simbolizada numa troca de sílabas: ao invés de rePEtir alguma coisa, o professor deveria reFLEtir sobre ela.
O autor salienta a importância da formação continuada do professor: "é preciso que cada professor de língua assuma uma posição de cientista e investigador, de produtor de seu próprio conhecimento lingüístico teórico e prático, e abandone a velha atitude repetidora e reprodutora de uma doutrina gramatical contraditória e incoerente".
O referido livro propõe a reflexão sobre o ensino de língua portuguesa, principalmente, junto às classes menos favorecidas e mudanças significativas na postura dos profissionais dessa área. Nas palavras do autor: "Ensinar bem é ensinar para o bem. Ensinar para o bem significa respeitar o conhecimento intuitivo do aluno, valorizar o que ele já sabe do mundo, da vida, reconhecer na língua que ele fala a sua própria identidade como ser humano. (...) Somente assim, no início de cada ano letivo este indivíduo poderá comemorar a volta às aulas, em vez de lamentar a voltas às jaulas.

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